Engenheiros para a recuperação econômica

Engenheiros para a recuperação econômica

O crescimento da indústria ao longo da última década acabou por provocar uma expansão da oferta de engenheiros e técnicos que, entretanto, não foi suficiente para evitar o "apagão de mão de obra".

Alguns programas foram lançados, destacando-se o PRONATEC, especialmente para a formação de técnicos, e o Ciência sem Fronteiras, destinado a enviar estudantes de graduação e de pós-graduação para a realização de cursos no exterior.

Mesmo sob uma forte crise econômica, que começa a dar sinais de abrandamento, não podemos nos descuidar formação de quadros nas áreas da tecnologia e da ciência,  ainda insuficientes. Em algum momento eles voltarão ser determinantes para a retomada do desenvolvimento e, por isso, é preciso ter cuidados especiais com os cursos de graduação em engenharia e tecnologia.

Nos anos 70 o ensino de engenharia passou por grande reforma, na mesma época em que foi fundada a ABENGE, Associação Brasileira de Ensino de Engenharia.

Foram concebidos currículos consistentes e capazes de combinar adequadamente as disciplinas de formação geral, destinadas a fornecer aos futuros engenheiros as ferramentas indispensáveis para o exercício da cidadania e da ética no trabalho profissional, as disciplinas de formação profissional geral, que traziam, pela primeira vez, a transdisciplinaridade para os cursos de graduação, e as disciplinas de formação profissional específica, voltadas para o exercício da profissão na habilitação escolhida.

Entretanto, apenas cerca de 80 mil se diplomam, número significativamente menor do que os da Rússia, Índia e China, todos do BRICS. Temos hoje cerca de 700 mil engenheiros, 7 em cada mil trabalhadores. Nos Estados Unidos essa relação é de 25 para cada 1000.

O novo cenário global, regido pela sociedade do conhecimento, acabou por impor a construção de estruturas curriculares que contemplem a interdisciplinaridade, o compromisso com o meio ambiente e o fortalecimento das culturas da educação continuada, do empreendedorismo e da propriedade intelectual, que resulta no incremento da comercialização de tecnologias.

Dessa forma, espera-se que os egressos dos cursos de engenharia e tecnologia apresentem algumas habilidades facilitadoras do exercício profissional: o trabalho em equipe, a capacidade de identificar problemas e de oferecer soluções, o raciocínio lógico e matemático e o manejo da língua portuguesa, são algumas delas.

Modernamente, a formação curricular impõe que a transversalidade entre as várias áreas de conhecimento seja a coluna vertebral das estruturas curriculares.

Além disso, estamos vivendo tempos em que os avanços do conhecimento obrigam a contatos estreitos e permanentes com a inovação. Em muitos casos, o tempo de obsolescência de um produto pode chegar a menos de quatro anos, prazo inferior ao da própria duração do curso.

Se o estudante não tiver contato frequente com as inovações e com os avanços da ciência e da técnica, poderá diplomar-se já fora do mercado. Uma segunda dificuldade surge da frágil articulação das universidades com o setor produtivo, na medida em que dela se origina a melhor forma de capacitação dos profissionais que a indústria necessita. Uma medida importante é garantir que nos cursos se desenvolvam  atividades de iniciação científica e tecnológica.

O momento de possível recuperação da economia impõe que voltemos a nossa atenção para a formação de engenheiros e tecnólogos, para que possamos responder às demandas e necessidades do setor produtivo.

 

Fonte: Jornal O Globo